Europa: Porque chegámos aqui? Para onde vamos?
Após a queda do Muro de Berlim (1989), a Europa entrou num novo capítulo da sua história, dispensando-se de cuidar da sua segurança e defesa, por ter imaginado um novo mundo pacífico, tranquilo e seguro. Nada de mais ilusório e errado. Aproveitando aquele acontecimento, a NATO entrou imprudente e ousadamente no antigo mundo da União Soviética, em crise, sem que tivesse ponderado e acautelado o futuro da sua leviandade. As negociações seguidas, após a queda do muro de Berlim levadas a cabo pelos EUA foram imprudentes e irresponsáveis, não acautelando o futuro nem contando com a possível reação futura de um povo ferido no seu orgulho e de uma cultura ofendida e maltratada. A independência e a segurança da Ucrânia não foram acauteladas nem defendidas, ao ter sido desapossada das armas nucleares entregues à Federação Russa pelos EUA, ficando entregue à sua sorte. Tal facto, foi um erro grave com repercussões na situação que atualmente se vive. Tudo poderia ser diferente se os EUA tivessem sido realistas nas negociações entre a Federação Russa e a República da Ucrânia no plano militar. Mas, não foi isso que sucedeu.
A União Europeia, que agrega um vasto conjunto de países, está longe de encontrar unidade na ação. Recorde-se que o passado de alguns desses países condiciona a unidade e entendimento no presente. Precisam de ir ao divã para ultrapassar os seus traumas. A Europa teve duas guerras civis (1ª e 2ª Guerra Mundial), que deixaram ressentimentos e desconfianças mútuas ainda por sanar.
No que respeita ao futuro, a UE ignorou a história e a cultura russas, bem como a sua estratégia militar, contando sempre com a proteção da NATO para garantir a sua defesa e segurança. Por isso, deixou de investir na sua defesa e segurança, reduzindo ou desmantelando as suas Forças Armadas. Entre nós, foi um descalabro o reajustamento feito no âmbito das estruturas militares. Acabar com o serviço militar obrigatório, sem mais nada, foi insensato, leviano e irresponsável. Assistiu-se em pouco tempo ao desmantelamento de estruturas e culturas consolidadas, decisão cujas repercussões já se fazem sentir. Realça-se que é fácil destruir, mas é muito difícil e oneroso construir. Portugal tem hoje umas Forças Armadas irrelevantes quantitativamente, mal armadas e incapazes de responder a qualquer agressão externa. Os restantes países da Europa estarão melhor, mas também têm fortes fragilidades. As invertebradas e moles lideranças europeias, pouco fazem. Se existem, só servem para promover sorrisos, abraços e festas de salão. Ora, este é o momento em que a Europa precisa de lideranças musculadas, conhecedoras da arte da guerra e preparadas para o que pode vir a acontecer. A tibieza revelada e a moleza das lideranças Europeias não auguram nada de bom. A incapacidade e a incompetência fizeram com que tenham presenteado a Ucrânia com palavras de conforto, promessas irrisórias e hesitantes, mesmo assim nem sempre cumpridas em tempo útil. Quando hoje se afirma que alguns países europeus estarão disponíveis para enviar tropas para a Ucrânia, isso deixa os mais informados duvidosos e apreensivos, temendo que isso possa gerar movimentos nesses países, capazes de provocar grandes convulsões. A decadência das lideranças europeias das últimas décadas minou o moral, destruiu as culturas e desconsiderou as estruturas militares. Com este procedimento, despreocuparam-se com a sua defesa e segurança. Qualquer país europeu que hoje ouse implementar a recuperação e o prestígio das suas forças armadas, tendo em vista promover a sua defesa e segurança, pagará um preço muito elevado. As sociedades estão desmotivadas para dar curso a esse empreendimento. É por isso que Putin se intitula defensor da civilização e, para isso, proibiu os movimentos marginais, retomando o paradigma tradicional. Donald Trump seguiu-lhe o exemplo e fez o mesmo, acabando com as veleidades e diversidades, recuperando em exclusivo o sexo masculino e feminino. Embora haja hoje um conhecimento científico de que há erros da natureza que não devem ser ignorados, começam a ser desprezados. Há uma abordagem interessante vinda de Yascha Mounk, em A Armadilha Identitária, para ajudar a esclarecer e temperar os excessos fervorosos de alguns arautos de uma falsa modernidade. Há que arrefecer e controlar os ânimos e repor a normalidade. Urge fazer uma reflexão séria e construtiva que conduza a uma solução equilibrada e sensata, preservando as diferenças, sem lhes conceder ou reconhecer a superioridade que têm tentado impor. As maiorias não podem, nem devem amedrontar-se ou submeter-se passivamente. Isso poderia vir a tornar-se uma indesejável e mortífera catástrofe no futuro.