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NOTAS SOLTAS | Uma predição da perdição

SÉRGIO TOVAR DE CARVALHOKurt Gödel foi um dos maiores matemáticos do Séc.XX e ficou conhecido sobretudo pelos seus estudos de lógica. Nascido austro-húngaro, em 1906, tornou-se de um dia para o outro checo, após a I Grande Guerra, vindo posteriormente a optar pela nacionalidade austríaca e, quando a barbárie assolou a Europa, estabeleceu-se nos Estados Unidos em 1940 e veio mais tarde a naturalizar-se americano.
Conta-se que no decurso do processo de aquisição da nacionalidade norte-americana, para que se preparou com o rigor que punha em tudo na sua vida, se debruçou sobre o texto da Constituição dos Estados Unidos, vindo a concluir que esta continha tais incongruências que havia a possibilidade de instauração de uma tirania com base nela. Os amigos, entre os quais Einstein, com quem manteve uma amizade próxima, terão ficado muito receosos de que por causa dessa interpretação lhe fosse recusada a pretensão e se visse forçado a retornar à Europa, mas o juiz era um homem compreensivo, tinha no processo o testemunho abonatório do autor da teoria da Relatividade e achou melhor não complicar as coisas, decidindo pela procedência do pedido de naturalização.
Ora, ora, ora... desde esse longínquo dia 5 de Dezembro de 1947, deu a Terra 77 voltas ao Sol e aguardam-se notícias do mais extremo teste de stress a que a democracia americana foi exposta...

Como um relógio parado

Todos sabemos que um relógio parado acerta nas horas duas vezes por dia. No entanto, com mais rigor se diria que é o dia que acerta no relógio, pois este nenhum esforço faz para atingir a verdade, ou a mera sorte de coincidirem os seus ponteiros com os dígitos do relógio atómico determinativo do tempo padrão.
No seu afã de destruir tudo o que não entende -actividade aliás bem típica dos ignorantes, quando atingem algum grau de poder-, o actual presidente do país supra referido emitiu um decreto banindo as competições desportivas femininas em que intervenham mulheres transgénero, isto é, pessoas nascidas com o sexo masculino que operaram a mudança para o sexo feminino. Os motivos determinantes dessa decretal hão-de estar ensombrados por razões inconsideradas e preconceitos absurdos, mas a verdade é que o relógio, aqui, acerta de alguma forma, pois é evidente a diferença entre a estrutura física de um corpo que cresceu masculino e outro, que se desenvolveu feminino e o relevo desta distinção numa prova de força.
Agora não sei se o decreto proíbe competições de xadrex, ou bilhar, ou outras quaisquer em que a constituição física não seja à partida um elemento diferenciador. Todavia, já Lenine dizia que as mulheres não sabem jogar xadrez -e parece que actualmente são tantas as semelhanças entre Washington e Moscovo, que ainda havemos de ler nos interstícios das barras azuis e brancas: “oligarcas de todo o mundo -uni-vos!”, a que certo dirigente político já falecido aditaria: “pá!”.

A economia circular e a circulação do capital

Actualmente, fala-se muito de economia circular. O conceito designa uma forma de produção e consumo tendente a um maior aproveitamento de recursos e consequentes redução do desperdício e aumento da protecção ambiental. Mas a economia circular vai além disso, pois configura-se também como um modo de viver, por isso uma filosofia prática, convidando os cidadãos e as empresas a participar no esforço de conservação do Planeta. De há muito a pratico, na pequena escala da minha existência, depois de ter aprendido com o meu patrono a reutilizar o verso das folhas de papel descartadas, fazendo delas cadernos de apontamentos. E assim, tenho uma gaveta com folhas de formato A5, que não são mais do que as recebidas todas as semanas a endereçar o Badaladas desde 2016 (as anteriores já foram reutilizadas e depositadas no contentor azul); veja-se, assim, como foi prolongada a sua vida: primeiro, endereçaram o jornal; depois, serviram para apontamento e rascunhos; em terceiro, para marcar a página de um livro; em seguida, para fazer um avião que atirei à cabeça de alguém distraído que, com ira, a amarfanhou e fez uma bola, com que marquei -ou não- um golo; e finalmente, um contributo para a indústria da reciclagem. O prolongamento da vida de um objecto tanto se faz, pois, através da sustentação do seu uso -um casaco de bom cabedal vive mais do que um de plástico, por exemplo-, quer por um novo uso nas condições remanescentes a um uso anterior, quer pelo aproveitamento da matéria usada como matéria-prima de um novo bem.
Conceito diferente é o da circulação do capital, noção tradicionalmente ligada ao ciclo de investimento e geração de valor financeiro, ou seja, de juros. Contudo, há situações em que, circulando o capital, o ciclo parece mais de economia circular que de circulação da pecúnia. Uma delas, paradigmática, é a das velhinhas que, mal recebem a pensão, a vão gastar ao quiosque do fundo da rua, com uma ideia de investimento: adquirem raspadinhas na intenção de comprarem um automóvel para o neto. No entanto, o retorno mostra-se geralmente ingrato e são forçadas a registar uma imparidade, de valor correlativo ao enriquecimento da Santa Casa. E então esta, condoída das velhinhas que à Misericórdia cabe proteger, atribui-lhes uma pensão, que elas vão mais tarde -logo que possam- investir em mais raspadinhas, que aumentam os activos da Bondosa Instituição...
Ora, se isto não é um exemplo lapidar de economia circular e, ao mesmo tempo, de circulação do capital, então não sei o que lhe chamar.