ARTUR DA ROCHA MACHADO: «O declínio do Ocidente, a União Europeia e a guerra na Ucrânia»
Assiste-se diariamente às notícias na televisão e nos jornais sobre o curso da guerra na Ucrânia. Porém, isto acontece lá longe e parece não sensibilizar nem incomodar quem está longe do teatro de operações, onde as mortes acontecem.

Quem está no terreno e luta pela sobrevivência e pela defesa da sua pátria, vive momentos complexos, ameaçadores e de risco permanente. Só pode perceber e avaliar esta situação quem a experimentou. Muitos de nós, mais velhos, tivemos uma pequena experiência do que é o estado de guerra e a ameaça permanente da sobrevivência (guerra colonial). Por isso, compreendemos e damos-lhe a devida importância. E aprendemos uma máxima: O estado de prontidão para a guerra é essencial para garantir a paz. É essencial ser duro com os duros e condescendente com os fracos. Só os covardes não agem assim. O Ocidente, depois da Segunda Guerra Mundial, descurou e despreocupou-se com a sua defesa, deixando que os Estados Unidos assumissem essa tarefa. Esta atitude teve como consequência, por um lado, uma mudança no comportamento dos cidadãos no que respeita à defesa do país e, por outro, o enfraquecimento e quase desmantelamento do aparelho militar. Este entrou em decadência acelerada, quase colapsando. Quando agora é sondado o aprontamento militar, face às ameaças de guerra emergentes, não há capacidade de resposta necessária e adequada. Começa então a impor-se como imperativo urgente a reorganização e reforço de recursos das Forças Armadas, quer em termos empresariais para efeito de produção de material bélico, quer em termos de dotação e preparação de recursos humanos para os exércitos. Tarde para o fazer e produzir efeitos visíveis a curto prazo. O facto dos países ocidentais, em regra, terem descurado o investimento na sua defesa e segurança está a repercutir-se na capacidade de defesa global da UE. Esta, está confrontada com a incapacidade de responder, por falta de recursos, aos desafios presentes. Contudo, esta situação era há muito previsível, mas não houve sensibilidade e realismo para a nova situação. Descuradas ou mesmo desmanteladas as indústrias de defesa em muitos dos países europeus, hoje corre-se contra o tempo em busca de soluções urgentes, mesmo recuperando as empresas de defesa desmanteladas no passado. Sublinha-se que o estado de guerra nas sociedades é permanente, enquanto o estado de paz é um acontecimento esporádico, pelo qual urge lutar permanentemente. Por isso, estar em estado de prontidão para a guerra é a melhor decisão para dissuadir, prevenir e garantir a paz. A estrutura de liderança da UE não passa de um organismo eivado de boas maneiras, bons costumes, boa convivência, festividades e fotografias de família, mas sem argumentos defensivos reais, pelo que tem respondido às questões de guerra da Ucrânia com a abundante dádiva financeira, como se isso fosse, neste caso, o essencial. Um verdadeiro estado de guerra como se sente pelas constantes ameaças em toda a Europa, requer outro tipo ou perfil de liderança, com outras dimensões estratégicas, técnicas, convicções, posturas e determinação. A guerra requer das lideranças, perfis que a UE atualmente não possui. Assumir e viver um estado de guerra com a ingenuidade, leviandade e irresponsabilidade a que se tem assistido diariamente, é paradoxal e em boa medida incompreensível. O estado que se vive na liderança da UE é desajustado à realidade. Recorda-se que a implosão da URSS em 1991 e o reconhecimento da independência das suas repúblicas abriu um novo caminho para os povos dessas repúblicas. Mas, não foram acauteladas as condições para prosseguirem o seu caminho como entendessem e escolhessem com garantias firmes de que poderiam caminhar sem interferências. Pouco depois, por um lado a Federação Russa diminuída do seu império e ressentida da perda, não se coibiu de tentar recuperar o seu antigo império e, por outro, a NATO que entrara pelos países do ex-pacto de Varsóvia, aproveitando a oportunidade de fraqueza para os integrar, não criou, incautamente, as necessárias condições de garantia de segurança e defesa desses países. É neste contexto que assistimos à guerra que se trava entre a Rússia e a Ucrânia originada pela invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Se a Europa e a NATO tivessem demonstrado uma posição de força e por isso fossem respeitadas logo aquando da ocupação da Crimeia pela Federação Russa, tudo poderia ser diferente. Porém, perante a passividade enfrentada, o Kremlin definiu os seus objetivos sem os clarificar e, pela voz do Presidente Putin, foi declarado que iria conquistar até onde fosse possível. Face à moleza da Europa e à hesitação dos EUA, não se sabe onde vai parar a invasão de Putin. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Esperemos para ver…