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ARTUR DA ROCHA MACHADO: «A nobreza e a inteligência de saber sair de cena»

A vida humana é um acontecimento breve e sem qualquer hipótese de resgate. O ser humano é um fenómeno irrepetível e a vida um acontecimento finito. Porém, cada um interpreta-se não como é, mas como gosta de ser visto, variando assim a sua expressão social. Pela sua irrelevância, a humildade fica bem a qualquer ser humano, sendo uma das suas grandezas mais elogiadas. Cada ser humano é um projeto inacabado. E a frustração é a sua companhia permanente. Há quem opte por Ser e há quem opte por Ter. Diogo Jota optou pelo Ser, pela humildade, pelo humanismo. Outros optam pelo Ter, convencidos que o dinheiro compra tudo e que os faz grandes, cegos para a sua conduta arrogante, como se vê nas suas ações.

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Artur da Rocha Machado (Professor universitário, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa)
Artur da Rocha Machado (Professor universitário, membro da Sociedade de Geografia de Lisboa)

Realça-se que a mais inteligente e nobre decisão de qualquer ser humano é saber sair de cena pelos seus pés, no tempo certo, evitando ser apoucado e corrido. Na vida há um tempo para tudo. Até para ter juízo. Vem tudo o que se disse a propósito das mais diversas manifestações de apreço, respeito e sentimento, que rodearam o trágico acontecimento da morte de Diogo Jota e seu irmão André Silva num acidente de viação. As manifestações de pesar ultrapassaram o previsível. Os clubes onde Diogo Jota prestou serviço como jogador de futebol, não o esqueceram, nem esqueceram as suas qualidades pessoais e profissionais. Foi evidente e surpreendente a onda de sentimentos e emoções que invadiu o mundo do futebol. As pessoas simples e humildes têm o tributo dos homens. Desviou-se dos holofotes. Foi discreto. Fez uma vida simples, segundo a nobreza do seu carácter. Por isso teve o reconhecimento a que todos assistimos. A arrogância é sempre expressão da ignorância e do baixo carácter. Muitos colegas da seleção nacional vieram de diversos países despedir-se do companheiro estimado, num último adeus. A grandeza dos homens mede-se pelo seu carácter e pelos atos praticados. Diogo Jota teve o reconhecimento que merecia da parte dos colegas. Era um profissional estimado e reconhecido pelos companheiros, como se viu, o que é verdadeiramente notável, nobre e sensível. A ausência de Ronaldo estranhou-se e diz um pouco dele, mas tudo decorreu indiferente à sua ausência com o elevado reconhecimento público prestado a Diogo Jota. A sua contribuição na Seleção Nacional de Futebol só não foi mais influente por não lhe ter sido dada oportunidade, embora tivesse todas as condições para ter boas prestações. Isso sucede pelo facto de na Seleção Nacional haver uma espécie de Dupond e Dupont que complica tudo. Martinez elogia Ronaldo e Ronaldo elogia Martinez. Estranho, não é? Mas Ronaldo já não passa de um fantasma em campo. Só prejudica. Faltou-lhe a lucidez para saber sair em glória no tempo certo. Hoje não passa da sombra de um futebolista de elite, que já foi, mas agora não é. Como é que não se apercebeu da sua degradação futebolística? Os petrodólares dominaram-no e fizeram-no acreditar que era grande e eterno. Não controlou o desenvolvimento exponencial do seu Ego obeso. Ronaldo já não faz falta na seleção. Digam-lhe isso. Lembrem-lhe que a Seleção Nacional e Portugal sobreviverão ao seu desaparecimento sem notar a sua falta. É essa lucidez que deveria ter tido em tempo certo. As pessoas são todas precisas, mas nenhuma faz falta. Um dia, Ronaldo vai despedir-se da vida de futebolista. Mas nem se vai notar, porque não faz falta alguma. Os petrodólares não valem a dignidade e nem a honra de uma pessoa. Com os petrodólares poderá comprar tudo, mas não comprará o respeito, a honra ou a dignidade. O dinheiro compra pessoas e coisas, mas não compra amigos. Não há lojas onde se comprem amigos. Há que os fazer no tempo e com o tempo, numa interação e confiança saudáveis.

Já se viu que Martinez é frouxo e não terá a coragem de tomar a decisão certa que todos vêm como imperativa: dispensar Ronaldo da Seleção Nacional. Isto porque o monstro do seu Ego reagiria mal. Considera-se dono e patrão da Seleção Nacional. Contudo, convém prevenir a degradação acelerada da imagem daquele que já foi um futebolista de elite mundial e mesmo considerado o melhor futebolista do mundo. Hoje não é. É uma sombra daquilo que já foi. Ronaldo não percebeu que na vida tudo é efémero. Tudo é de curta duração. Por isso, aconselhem-no a mudar. No entanto a comunicação social e a poderosa máquina de marketing de que dispõe vão continuar a alimentar e alimentar-se da imagem de Ronaldo, mesmo quando as qualidades profissionais que lhe deram fama entrarem em total colapso e desaparecerem. Fama e respeito não coabitam. Porém, as lendas sobrevivem.